November 25, 2006

VAI UM COPO D’ÁGUA?

Para Laurinha

    Sempre gostei de jogar xadrez, mas por falta de parceiro precisei me adequar a outros tipos de jogos para aproveitar melhor a boa companhia, especialmente por se tratar de pessoas tão agradáveis e que só as tenho duas vezes por ano, nas férias de julho e janeiro.  Então, cada minuto é importantíssimo.

Lembrei-me de relatar essa história porque recebi um e-mail sendo comunicado que na véspera de natal alguns dos meus parceiros de jogatina irão chegar.

Mas para jogar nosso jogo não é preciso um esquema cuidadosamente elaborado. No nosso caso o lucro ou vantagem é não encher a bexiga de água ou encher a bexiga. É o conhecido jogo do “copo d’água”.

Bem, analisei profundamente e pude concluir que é um jogo de repente criado por um médico especialista em cuidar dos rins. Não me lembro no momento do nome da especialidade e minha mãe não está presente para que possa me esclarecer. Ela entende bem disso, pois sofreu muito com pedras nos rins e já foi carregada no colo literalmente com uma crise dessas ficando internada por dois dias e quando voltou do hospital, lembro bem de uma de suas amigas se solidarizando com ela, dizendo que cólica renal dói mais que ter um filho e ela respondeu que ainda bem que ela só conhece a dor da cólica renal, o filho, que sou eu, nasceu de cesariana.

Mas provavelmente se minha mãe jogasse o “jogo do copo D’água” não teria problemas com os tais cálculos renais e consequentemente não teria que ter se recusado a fazer um exame para mapear as tais pedras para posterior implosão a laser. Ela se recusou porque o médico queria que ela assinasse um documento onde se responsabilizava, segundo ela, por sua própria morte, pois teria que ter injetado em suas veias um medicamento feito de iodo e caso fosse alérgica se despediria da vida ali mesmo. Ficou tão horrorizada que disse ao médico que tinha muito o que viver.  Voltou pra casa, encomendou garrafadas de chá de quebra pedra misturado com outras ervas medicinais e de acordo com o último exame de ultra sonografia seus rins estão limpos.

Mediante a história relatada não tem perdedores nesse jogo porque quem perde ganha uma lavagem grátis nos rins. Nesse caso o perdedor é o verdadeiro ganhador, concordam?

MINHA AVÓ ANÁLIA É O MÁXIMO


Vovó Anália com vinte e poucos anos de idade.

    Assistir televisão ao lado da vovó é sempre uma diversão à parte. Isso porque quando ela não entorta a cabeça no encosto do sofá e dorme, dando uma leve soprada pelo canto esquerdo da boca, fica fazendo comentários sobre o que está assistindo, tirando a “concentração” e a emoção da atração televisiva. No caso de novelas, nas cenas de romance ela diz logo “Olha que sem vergonha! Se cheirando com esse aí”, virando-se para quem estiver ao seu lado perguntando: “ela é casada? Quanto será que tá ganhando pra ser sem vergonha na televisão?”

Só pára de “sacanear” a atriz quando alguém diz que “é só uma novela!”.

Um dia estávamos assistindo um filme de grande apelo emocional, onde um cara já da idade avançada ia morrer e estava abraçando seu filho, reconciliando-se depois de anos de desentendimento, vovó não perdoou a cena e soltou logo: “O que esses dois machos tão fazendo se abraçando desse jeito?”.  Não tinha outra coisa a fazer a não ser sorrir. 

Mas aos poucos entendi que a vovó se comporta dessa forma porque só entende aquela parte do programa do Gugu onde ele fala “olhaaaa!!!”.

E quem precisa de televisão para se divertir? Minha avó nasceu e cresceu em um tempo que as pessoas não viam a vida passar diante de uma tela de tv. E a prova disso é o número de histórias que ela conta de sua juventude. Dá para perceber sua saudade dos bailes que participava, cheios de glamour. Era uma moça muito bonita de corpo perfeito (sem lipoaspiração e sem silicone) e requintada dos anos 50. Vejo suas fotos e é como se estivesse assistindo a um daqueles filmes antiguíssimos em preto e branco.

Ela conta que uma moça não sentava de pernas abertas, não falava alto e não falava nome feio. Conheço algumas gatinhas que precisavam aprender algumas coisas com a vovó, especialmente a não sentar-se com as pernas abertas, não que eu me incomode, mas elas sentam bem à vontade e acham ruim quando a gente olha.

Vovó, na sua experiência de vida, tem frases inteligentes e engraçadas e as duas coisas ao mesmo tempo, como essa que disse a uma garota muito jovem que não queria compromisso algum com trabalho e estudo e resolveu casar: “Minha filha, quem não presta pra nada, presta pra casar”. Ou ainda, quando vê alguém esbanjando dinheiro: “Coisa boa é dinheiro!”, completando e dando conselho a quem não gosta de economizar: “Guarda com os dentes para comer com as gengivas”. Quer dizer que tem que guardar enquanto jovem para quando ficar velho ter como sobreviver com dignidade.

E aí tem alguém que discorda que minha avó Anália é extremamente sábia?

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