JOGOS INDÍGENAS – PARTE II – EPÍLOGO
No último dia dos jogos indígenas, foi organizado um momento especial, para o encerramento, quando a comissão organizadora pôde fazer todo o “balanço” dos dias do badalado evento, regado a rasgação de seda e puxação de saco. É claro, que o prefeito, como principal autoridade da cidade estava lá no centro de tudo, pra ser vaiado de novo. Digo de novo, porque os seis dias desse evento foram marcados pelas competições entre as tribos, paqueras, shows de músicas bregas do Pará e as vaias que o prefeito ganhou de presente que poderia dizer sem dúvida, um sucesso absoluto. Um evento a parte, porque todo mundo se mobilizava para estar sentadinho na arquibancada e dessa forma não correr o risco de perder o momento em que o governante municipal era chamado ao palco e então, juntarem-se em coro para a vaiada geral.
Por ser o último dia, era também a última das raras oportunidades em que grande parte dos cidadãos da cidade estavam juntos para expressar seus sentimentos de insatisfação através da vaia. Era comum ouvir as pessoas combinando entre si: “-Tá quase na hora, vamos lá dar uma força”.
E assim, todas as vezes que o cacique da cidade – o prefeito- era convocado ao palco principal, a vaia começava e ia tomando proporções que realmente acabava sendo o momento mais emocionante e divertido do evento.
Percebi que as pessoas se sentiam felizes depois desse desabafo. Nos gritos de “uuuuuuuuu” estavam sendo colocados pra fora toda a vontade reprimida pelos populares de esganar o prefeito. Só podia ser isso. Óbvio que era isso.
Meu Deus (pausa para um momento de reflexão), ainda bem que minha tia não ganhou a eleição para prefeita, porque eu ficaria numa situação muito complicada. Num momento histórico, onde as pessoas da cidade reunidas quase em peso; estudantes, professores, ricos, pobres e até índios. Eu ia ficar constrangido entre dar uma força pra democracia através da vaia, porque vaiaria minha própria tia. E minha situação familiar, como ficaria? Criaria um incidente na família considerado gravíssimo, seria uma traição.
Independente de qualquer coisa, de qualquer prefeito, seja o político que for ele tem que ser vaiado pelos cidadãos de bem. Cidadão que é cidadão de verdade tem que exercer o seu direito de vaiador. E foi o que eu fiz naquele momento me juntando aos demais cidadãos e sem dor na consciência (minha tia não ganhou mesmo - pausa para risos).
Mas no último dia, a vaia foi especial, além de ser o último dia do evento, o cacique que estava representando todas as tribos deu um generoso reforço quando disse (no final, na hora da troca de presentes), para o prefeito que Ele (prefeito), era dono do povo mais animado do Brasil e que tinha a obrigação de ser muito feliz por isso. Aí foi, definitivamente, sem dúvida o momento mais… mais… mais estonteante, marcante dos seis dias debaixo de um sol de 50º, pra ver aqueles índios espetando as coisas com suas flechas. As arquibancadas tremeram com as risadas do público, sedento de água (por causa do calor) e de uma boa piada. Eu também estava rindo e muito, mas minha atenção de repente foi roubada quando vi um homem com o corpo tremendo que parecia estar tendo um ataque epilético de tanto rir. Ria, ria e ria. Comecei a ficar preocupado porque ouvi falar que rir demais mata. Chorar demais não mata só deixa o cara, além de muito chateado pelo motivo que o levou a chorar (aliviado também), com os olhos vermelhos e com aquela cara de quem chorou. Se for minha priminha Anna Carolina, além dessas características citadas terá um soluço muito triste de partir o coração (mas acho que é porque ainda tem um ano de idade, depois ficará só com as primeiras características). Mas rir, dizem que mata. Meio contraditório, porque sempre vejo escrito por aí que rir é o melhor remédio, se bem que remédio também mata se for demais.
Mas, o homem estava totalmente sem controle e como ser humano cristão evangélico que sou, pensei que ele fosse realmente morrer. Se bem que se morresse acho que seria de felicidade (ia morrer rindo - um privilégio). E aí eu presenciaria alguém morrer de rir, literalmente. Não pensem que isso me deixaria feliz. Deus me livre. Só ia ver, por estar no lugar certo, na hora certa ou errada, sei lá. O importante, graças a Deus é que ele parou, sentou, ficou triste e danou a xingar o prefeito de “disgraçado, fiu de uma égua, infiliz”; dizendo isso e chorando. Quando vi o anônimo chorar, fiquei contente, porque assim ele dava uma desintoxicada do tanto que riu e se livrava da morte de tanto rir.
Bom, nunca saberei daquela “mistureba” de sentimentos (acho que com um pouco de cachaça) do pobre homem. Só posso imaginar que é mais um eleitor descontente. E eleitor descontente é o que não falta nessa cidade.


