Não sou um E.T., ou sou?
Um grande amigo, blogueiro, me disse que tratava seu blog como um filho e isso me fez lembrar de quando nos mudamos para esta cidade (eu com meus pais é lógico).
Por se tratar de uma cidade pequena, as pessoas se conhecem pelo nome e temos muitos familiares por aqui, especialmente por parte da minha mãe, que embora não tenha nascido na cidade, viveu grande parte da sua vida, foi pra São Paulo, fez o que tinha que fazer por lá, e entre outras coisas, casou-se com meu pai, que é de São Paulo e nunca havia saído de lá, até vir morar aqui no Pará. Eu, embora nascido em São Paulo, como meu pai, já conhecia a cidade, pois em todas as férias de julho era trazido por minha mãe pra visitar a família, aproveitando pra fugir do inverno paulista e assim eu me recuperar da bronquite da qual era vitima. Segundo minha mãe, era comum o pediatra perguntar, lá pro mês de junho, se poderíamos viajar para o Pará em julho, pra eu respirar melhor e automaticamente dava para o médico uns dias de sossego; pelo menos ele teria um “goguento” a menos pra se preocupar e ser perturbado pela minha mãe, que telefonava desesperada nas madrugadas geladas de São Paulo, pra Ele dar um jeito na minha tosse.
Pois bem, chegou o dia em que não precisamos mais viajar mais para passar as férias no Pará, porque mudamos para o Pará, atitude que curou o meu problema respiratório. Hoje tenho resfriados como pessoas normais. Minha mãe, de tão agradecida a Deus pela minha saúde, resolveu socializar o meu inalador com os necessitados da cidade, que são os idosos fumantes e que de tanto se divertirem com um cigarrinho na juventude, hoje precisam da ajuda de uma inalação para conseguiram mais uns dias respirando aqui na terra. Não estou querendo rogar praga, mas estou achando que o próximo a ser beneficiado com o tal do inalador é o seu Gogó (de quem falo no post), pela quantidade de fumo que vi na mão dele no dia da praia. Se aquilo fosse maconha, seu Gogó ia ser considerado um traficante dos mais perigosos.
Quando mudamos pra cá, as pessoas me achavam muito diferente dos moleques da minha idade, inclusive eu. Eu, além de ser muito branco para o padrão das pessoas daqui, que são muito bronzeadas, não tinha as mesmas preferências no que se refere às brincadeiras. Por exemplo, não tinha ninguém pra jogar xadrez, conversar sobre programação (informática), DELPHI, C#, ASSEMPLER, ASSEMPLY, CLIPPER e coisas mais da área. Na única banca de jornal da cidade só encontrei revista de mulher pelada e revista de fofoca de tv. Fiquei arrasado e minha cuidou para que eu tivesse acesso a muitas das literaturas que eu encontrava facilmente numa banca de jornal de São Paulo e aqui só mesmo através de uma assinatura, para receber mensalmente, o que me causou muita ansiedade, esperando o dia da chegada, levando em consideração que pesaria no orçamento fazer a assinatura de todas as revistas que me interessavam e que eu tinha fácil acesso lá; minha mãe é professora e mesmo sendo professora universitária, não ganha tanto assim.
Mas consegui vencer meus primeiros meses na nova cidade, sem cinema e algumas modernidades da cidade grande. Fui conhecendo alguns caras, na faixa dos vinte anos e que por já serem adultos, tem muitas obrigações, como trabalhar pra se sustentar ou pelo menos ajudar no próprio sustento, o que fazia com que as conversas só pudessem acontecer nos finais de semana e quando estavam sem namorada. No começo fiquei um pouco revoltado com as namoradas dos caras; ô “minas” chatas. Depois pensei em arrumar uma namorada. Mas que garota de uns dezessete ou vinte anos ia querer namorar um sujeito de nove anos. Eu. Sem falar que o objetivo do namoro seria conversar sobre programação, informática. Só se fosse alguma “mina” com sérios problemas, inclusive mentais.
Até os parentes aceitarem o meu estilo de vida diferente dos garotos da minha idade, tive que ouvir coisas como:
- Pega um estilingue e vai pro mato pegar passarinho, rapaz.
(sempre aprendi que matar passarinho era crime ambiental que dá cadeia).
Outra:
- Vou te levar “pá” fazenda e te ensinar a amansar boi brabo.
(sobre bois, gosto muito da picanha retirada deles e bem passadas. Lembrei de uma churrascaria de São Paulo onde tem uma plaqueta nas mesas, escrito de um lado; “solta o boi” e do outro “prende o boi”, para que o garçon esteja sempre a seu serviço e nunca deixe nem sobrar, nem faltar carne no seu prato).
Chegou o momento em que tive que chamar meus pais, especificamente minha mãe pra discutir minha existência. Será que eu sentiria falta no futuro de apedrejar cachorros, matar passarinhos, levar choque de fio elétrico resgatando pipa, jogar pedra no telhado da casa dos outros, escrever coisa feia no muro da escola, fazer gestos obscenos, como mostrar a língua e o dedo do meio, caso fosse contrariado?
Foi então, que aos nove anos, com a ajuda dos meus pais, entendi que não era um ET. Era um ser humano menos primitivo que os seres humanos daqui. E é aí que entra o meu amigo César Miranda, que tive a honra e o prazer de conhecer, como se já O conhecesse há anos, do infelizmente finado Pro Tensão, que teve uma infância muito parecida com a minha e se tornou um adulto normal, bem humorado e feliz. Certamente que não tenho a pretensão de ser um blogueiro famoso como Ele e nem teria talento pra isso, eu acho. Seria impossível (pelo menos por enquanto) vocês me virem numa foto no Orkut lendo Muriac (o César é um intelectual, o maior). Eu só estou me divertindo e tendo a chance de conhecer talentos de verdade como o César, o Igor, o Alexandre Soares Silva, o Ruy Goiaba e outros. O que quero mesmo é ser um excelente programador e pelo caminho fazer bons amigos.
Bom, tenho só doze anos… E a certeza que tenho mesmo é quero fazer bons amigos pelo caminho e quem sabe daqui um tempo arrumar uma namorada normal e da minha faixa etária.


